Transformação digital em hospitais

 

 

A transformação digital é tema recorrente nos mais diversos setores em todo o mundo, e, claro, também chegou ao setor hospitalar, mesmo que seus próprios atores ainda não estejam muito conscientes do impacto e da profundidade das mudanças que vieram. Não se trata apenas de informatizar o hospital, nem fazer aplicativos ou tornar mais fácil a marcação de consultas online pelo paciente. Embora esses elementos façam parte de um processo, não podemos reduzir a transformação ao uso de tecnologias específicas ou confundir formas com o plano de fundo.

A transformação digital é um processo contínuo e complexo, multidimensional, vinculado a fatores sociais, econômicos e tecnológicos que transcendem as paredes do hospital. Desta forma, o primeiro passo real que o gestor da instituição deve tomar é se conscientizar que não se trata de moda, e sim de uma mudança de mentalidade de todo o processo hospitalar, de pensar sobre a chave digital. Sem dúvida, um bom ponto de partida é colocar o paciente no centro dessa transformação.

Nesse sentido, os hospitais vivem atualmente em seu próprio mundo de duas velocidades: o crescimento e a tecnificação de procedimentos médicos e técnicas de diagnóstico, com avanços surpreendentes em materiais para uso clínico ou uso de medicamentos inteligentes, que contrastam radicalmente com os métodos organizacionais tradicionais e burocráticos.

Os hospitais devem começar a compreender o paciente em sua totalidade, iniciando – logicamente – pela doença que o levou até lá, mas sem deixar de avaliar também seu contexto, seu modo de vida, seus hábitos, seu ambiente familiar e social. Compreender, além disso, que o paciente é, e será cada vez mais, um ser digital ativo, com acesso a tecnologias que podem e devem ser usadas como parte integral e natural de seus cuidados e processo de atendimento e acompanhamento.

Claro, os pacientes querem e exigem que suas informações sejam usadas de forma integrada e inteligente. A não integração desses dados  é um problema recorrente em toda a América Latina, por falta de unificação dentro do mesmo hospital ou entre o hospital e sua área de saúde, para não mencionar os níveis administrativos e geográficos mais altos: municipal, estadual, nacional, internacional. Se pudermos conectar a grande quantidade de dados produzidos por organizações de saúde e conectá-las inteligentemente com dados que os pacientes possuem, ou que outras instâncias públicas ou privadas possam compartilhar o ambiente social, econômico e ambiental no qual o paciente está imerso, poderíamos fazer uma gestão extraordinariamente diferente e exponencialmente mais efetiva do que hoje.

A esse respeito, a capacidade preditiva de algoritmos inteligentes será uma fonte de inovação disruptiva para o setor hospitalar, tanto em processos clínicos quanto administrativos. Além disso, a proliferação de ferramentas e dispositivos wearables e, em geral, dispositivos conectados, como monitores fitness, aplicações móveis de saúde, monitores de glicose ou pressão sanguínea, entre outros, permite aos pacientes um grau de flexibilidade sem precedentes, quando se lida com a gestão e o controle de sua própria saúde.

Se aplicássemos as análises preditivas a toda essa imensa quantidade de dados gerada e fornecida pelos próprios pacientes, com aqueles que já possuem registros clínicos eletrônicos hospitalares, conjuntamente a outros dados externos gerados no ambiente, os hospitais poderiam fazer programas analíticos que os ajudariam a fidelizar, reter e gerenciar a saúde de seus pacientes, bem como analisar o contexto de saúde da população atendida a partir de uma visão mais ampla e mais rica, conceito que está ganhando maior relevância dentro das iniciativas estratégicas dos hospitais modernos (population health management).

No entanto, é importante notar que, sem padrões de interoperabilidade, modelos de governança de dados e, acima de tudo, sem uma estratégia digital abrangente, o imenso fluxo de informações geradas torna-se incontrolável e os investimentos nesse campo não terão o retorno esperado pelos gestores.

Em suma, para definir uma estratégia digital, os hospitais precisam concentrar-se no digital a partir de um ponto de vista estratégico, se realmente querem tornar-se uma alavanca de transformação com mudanças reais, para serem líderes do presente e do futuro. E os hospitais que emergirão como líderes do futuro não serão aqueles que faturam mais ou têm melhores proporções da EBITDA, e sim aqueles que sabem melhor interpretar o atual momento social, econômico e tecnológico.

 

Fonte: SaúdeBusiness

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