O paciente no centro da formulação de políticas de saúde

É preciso que os sistemas reorganizem a oferta de serviços

Foi realizada em junho deste ano a 25ª reunião do Comitê de Saúde da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), organismo multilateral cujo ingresso como membro é pleiteado pelo Brasil. A participação de representantes dos países postulantes nos diversos comitês da OCDE é franqueada e, em grande medida, incentivada.

O acompanhamento das discussões e das deliberações contribui para aprimorar iniciativas nacionais por meio da comparação e da análise das referências internacionais. O ganho é enorme em termos de capacidade de formular políticas públicas setoriais de qualidade, o que pode ser potencializado com a futura inclusão do Brasil como membro da OCDE.

Um dos temas mais relevantes tratados na reunião do Comitê de Saúde foi a iniciativa PaRIS (Patient-Reported Indicator Surveys), que, em linhas gerais, consiste em pesquisas para construção de indicadores de saúde relatados pelos pacientes.

A iniciativa visa tornar os sistemas de saúde mais centrados nas pessoas, por meio da coleta sistemática de dados acerca do que mais importa aos pacientes em função das suas condições clínicas e dos tratamentos possíveis. O trabalho em desenvolvimento deverá ter um projeto piloto voltado à difusão e adoção de indicadores em três áreas clínicas prioritárias: saúde mental, câncer de mama e substituição eletiva do quadril e joelho. Os resultados serão posteriormente divulgados em publicação da OCDE.

As medidas tradicionais de resultado em saúde em termos de sobrevivência ou mortalidade permanecerão úteis, obviamente, mas, como não capturam outros impactos igualmente importantes para as pessoas, é preciso que os sistemas de saúde reorganizem a oferta de serviços para atenderem a essas expectativas.

Pessoas diagnosticadas com câncer, por exemplo, valorizam muito a sobrevivência, todavia o sucesso terapêutico enseja outros aspectos como controle de dor e náusea, qualidade do sono, imagem do corpo, função sexual, autonomia para realizar atividades cotidianas e tempo ausente do trabalho ou de casa. Todos esses fatores contribuem para a qualidade de vida do paciente e são também valorizados por sua família e amigos. Daí a importância de se medir resultados em saúde relatados pelos pacientes para a promoção de sistemas de saúde centrados nas pessoas.

Essa iniciativa internacional reforça movimento cada vez mais consistente no setor de saúde: a busca por um sistema baseado em valor para os pacientes, ou seja, um sistema que entregue resultados em saúde que realmente importam a um custo suportável.

Atentar para indicadores de resultados de saúde relatados pelos pacientes contribui não apenas para formuladores de políticas públicas, mas também para os atores privados que atuam no setor, no sentido de readequarem estratégias e suas organizações em prol de um sistema de saúde que entregue valor para a sociedade.

Por Leandro Fonseca
Fonte: Folha de S. Paulo – 31/07/2019

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Fonte: ABRAMGE – Blog

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