Na transição é preciso redobrar os cuidados com medicamentos

Erros de medicação afetam o cuidado e colocam o paciente em risco inclusive na desospitalização.

(Foto: Divulgação)

desospitalização – que pode significar tanto a saída do hospital diretamente para a residência do paciente quanto a mudança do hospital de alta complexidade para hospitais de retaguarda, transição e até mesmo casas de repouso – representa uma gama de desafios para as equipes responsáveis pelo atendimento. E a administração correta dos medicamentos desponta como um desses desafios.

É natural que haja alteração na prescrição medicamentosa ao longo das transições do cuidado, mesmo porque durante o período de internação, muitas das prescrições são intravenosas, cenário que normalmente deixa de ser repetido após a alta hospitalar. Desta forma, é preciso investimento da equipe multidisciplinar em garantir que tanto paciente quanto seus familiares e cuidadores tenham total compreensão de qual será a rotina de medicamentos daquela pessoa assim que ela cruzar a porta do hospital.

E essa relação entre profissionais de saúde e público está envolta em inúmeros percalços que vão desde alta complexidade nos níveis de medicação até mesmo pessoas com baixo nível de alfabetização e com dificuldades de compreensão.

Assumindo uma postura proativa para minimizar os riscos de erros de medicação, a OMS (Organização Mundial da Saúde) está há cerca de dois anos com uma campanha ativa diretamente relacionada à essa questão (1). E uma das áreas de atuação do projeto é, justamente, o cuidado com a administração de medicamentos na transição do cuidado.

O relatório Medication safety in transitions of care (2) – que consolida instruções de como manter a segurança na administração de medicamentos em todas as transições de cuidado –aponta que entre 25% e 80% dos pacientes que têm alta apresentam pelo menos uma discrepância (intencional ou não) em suas medicações.

O mesmo estudo relata que uma auditoria realizada na Inglaterra constatou que, após a alta hospitalar, 79% dos pacientes começaram a usar ao menos um novo medicamento; 27% tiveram no mínimo uma medicação interrompida; e 23% passaram por alguma alteração de dose.

Publicado em 2018 por profissionais da Queensland and Griffith University, da Austrália; e da Escola de Administração da Massey University, da Nova Zelândia; o artigo “Reducing medication errors at transitions of care is everyone’s business” (3) reforça que o cuidado com a administração de medicamentos em todos os passos do paciente dentro e fora das unidades de saúde é função de todos os envolvidos.

O texto conclui que a integração entre todos os atores desse sistema é indispensável para a construção de um ciclo capaz de manter o paciente no centro do cuidado, garantindo sua segurança inclusive durante as transições físicas e medicamentosas.

Ao abordar a saída do paciente do ambiente hospitalar, o artigo enfatiza que o planejamento eficaz da alta exige cooperação entre médicos, farmacêuticos e enfermeiros.

Estudo norte-americano analisa erros fora do ambiente hospitalar

Segundo estudo (4) realizado pelo departamento de Farmácia do Centro Médico da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, o erro de medicação mais comum fora do ambiente hospitalar é a utilização do medicamento duas vezes.

A pesquisa analisou 1.166.116 casos reportados ao Centro de Controle de Envenenamentos do país entre 2000 e 2005 e listados no Sistema Nacional de Dados de Envenenamento. As classes de medicamentos mais comuns envolvidas em erros incluíam produtos para tosse e resfriado, analgésicos, agentes cardiovasculares, anti-histamínicos, antidepressivos e antimicrobianos.

Felizmente a maioria dos erros apontados não resultou em morbidade significativa ou mortalidade. Porém não deixam de representar um alerta para incremento de ações e políticas que visem conscientizar a população e reduzir os riscos.

Atitudes para redução do risco – O que vem sendo feito?

O relatório da OMS aponta as principais dificuldades e lista algumas sugestões de como vencer o desafio de manter a segurança da medicação durante todas as transições de cuidados do paciente em atendimento de saúde.

  • Engajar pacientes, familiares e cuidadores – Conhecimento e capacitação contribuem para desfechos positivos e a parceria entre profissionais de saúde e pacientes, junto com suas famílias e cuidadores, é desejável;
  • Melhorar o sistema de informação – O investimento em tecnologia da informação melhora a qualidade dos dados reduzindo as chances de erros durante as transições;
  • Intervenções na alta hospitalar – Ação que envolve planejamento da alta, revisão de medicamentos, ferramentas eletrônicas para facilitar a troca de informações, envolvimento multidisciplinar, educação e aconselhamento do paciente, entre outros.

Além da medicação – Além da manutenção e segurança do tratamento medicamentoso, outros tantos pontos merecem atenção na hora da desospitalização. As equipes devem instruir pacientes e familiares a respeito de cuidados durante o banho, mudança de decúbito, realização de curativos, alimentação, cuidados com a sonda nasoentérica, aspiração e manipulação da traqueostomia quando for o caso.

Estudo “A desospitalização em um hospital público geral de Minas Gerais” (5), realizado pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, aponta que existem diversas fragilidades na implementação, sistematização, reorganização interna e continuidade após a desospitalização.

O documento diz que mesmo tendo ciência de que a desospitalização é um processo que está baseado em análises multidisciplinares, muita da responsabilidade recai sobre a figura do médico, já que as outras profissões tendem a aguardar a decisão do médico responsável. Além disso, reconhece que a desospitalização é uma transferência de cuidado, e toda transferência de cuidado gera um potencial de problemas. Entre eles, preparar tanto o paciente para a saída hospitalar quanto cuidadores e familiares para que assumam o cuidado no domicílio.

(Foto: Divulgação)

Fonte: Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP).

Esta publicação em nada reflete a opinião ou conhecimento pessoal da Presidência, da Diretoria ou da equipe do Grupo IAG Saúde, sendo seu caráter, unicamente informativo.

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